Estudiosos
da ditadura, entre eles um ex-guerrilheiro, atacam crença
de que esquerda armada lutava por democracia
Um dogma precioso aos adversários da ditadura
militar iniciada a 31 de março de 1964 está em xeque.
Novos estudos realizados por especialistas no período - alguns
deles integrantes dos grupos de oposição ao regime
autoritário - propõem uma mudança explosiva,
que semeia fúria nos defensores de outras correntes: chamar
de resistência democrática a luta da esquerda armada
na fase mais dura do regime está errado, historicamente falando.
- Falava-se em cortar cabeças, essas palavras
não eram metáforas. Se asesquerdas tomassem o poder,
haveria, provavelmente, a resistência dasdireitas e poderia
acontecer um confronto de grandes proporções no Brasil
-atesta Daniel Aarão Reis, professor de História da
UFF e ex-guerrilheiro do Movimento Revolucionário Oito de
Outubro (MR-8). - Pior, haveria o que há sempre nesses processos
e no coroamento deles: fuzilamento e cabeças cortadas.
"Ninguém estava pensando em reempossar João
Goulart"
Denise Rollemberg, mestre em história
social da UFF, destaca que o objetivoda esquerda era a ditadura
do proletariado e que a democracia era considerada um conceito burguês.
- Não se resistiu pela democracia,
pela retomada do status quo pré-golpe. Ninguém estava
pensando em reconstituir sistema partidário ou reempossar
João Goulart no cargo de presidente - diz Denise.
A professora explica - e Aarão Reis concorda
- que a expressão sequer surgiu
no fim dos anos 60, início das batalhas entre militares e
terroristas. A "resistência democrática"
apareceu na campanha pela redemocratização do início
da década de 80, após a anistia que permitiu
a volta de exilados como Leonel Brizola, Miguel Arraes e Fernando
Gabeira e criou uma clima de conciliação nacional.
- A descoberta da democracia pela esquerda se dá
apenas no exílio, com a leitura de filósofos e pensadores
como o italiano Antonio Gramsci e o entendimento correto das manifestações
de maio de 1968 em Paris. Acabou virando tudo uma coisa só
- diz ela.
A revisão de uma idéia cara à
esquerda transformou-se em bate-boca no seminário "40
anos do golpe: 1964-2004", realizado semana passada no Rio.
Professor de filosofia da Unicamp, João Quartim defende que
a luta era contra o golpe, pela restauração da democracia.
Também ex-integrante de uma organização armada,
a Vanguarda Popular Revolucionária, Quartim rejeita o rótulo
de antidemocrático.
- Lutávamos contra o golpe imposto pela
violência ao país. O conteúdo do nosso projeto
era levar adiante, com mais audácia, as reformas de base
do governo Jango. Quem deu o golpe é que quebrou, pela violência,
esse processo. O golpe foi dado pela direita, com o apoio da frota
americana que chegou a começar o deslocamento para cá
- argumenta Quartim.
O período que está na berlinda tem
o rótulo de "guerra suja" e aconteceu de 1968 a
1974 - ainda que as paixões indiquem que foi ontem. O
mergulho nas ações armadas deu-se a partir de uma
dissidência que produziu vários grupos de esquerda,
depois massacrados por uma indústria de torturar e matar
montada pelo governo dentro das Forças Armadas.
Outro participante da luta, o professor de História
da UFRJ Renato Lemos, acha que é responsabilidade ética,
social, política e histórica da esquerda assumir suas
idéias e ações durante a ditadura.
- Cada vez mais se procura despolitizar a opção
de luta armada numa tentativa de autocrítica por não
termos sido democratas. Nossa atitude foi tão válida
quanto qualquer outra. Havia outros caminhos, sim. Poderíamos
tentar lutar dentro do MDB, mas achávamos que a democracia
já tinha dado o que tinha que dar - confirma Lemos.
Professora da USP, Maria Aparecida de Aquino pondera
que nada é assim tão simples. Para ela, não
se pode afirmar que caminho tomaria o Brasil se a luta armada tivesse
prosperado.
- Era resistência, mas não sabemos
se seria democrática porque a esquerda não chegou
ao poder - sustenta ela. - Não havia como pensar no restabelecimento
do estado de direito sem tirar militares do poder. Quem interrompeu
a democracia foram os militares.
Aarão Reis discorda.
- As esquerdas radicais se lançaram
na luta contra a ditadura, não porque a gente queria uma
democracia, mas para instaurar o socialismo no país por meio
de uma ditadura revolucionária, como existia na China e em
Cuba. Mas, evidentemente, elas falavam em resistência, palavra
muito mais simpática, mobilizadora, aglutinadora. Isso é
um ensinamento que vem dos clássicos sobre a guerra.
Disputa entre duas elites a que o povo assistia de fora
Professor de sociologia da Unicamp, Marcelo
Ridenti argumenta que o termo "resistência" só
pode ser usado se for descolado do adjetivo "democrática".
- Houve grupos que planejaram a ação
armada ainda antes do golpe de 1964, caso do pessoal ligado ao Francisco
Julião, das Ligas Camponesas. Depois de 1964, buscava-se
não só derrubar a ditadura, mas também caminhar
decisivamente rumo ao socialismo.
Professor do Instituto de Filosofia e Ciências
Sociais da UFRJ, autor do aclamado "Como eles agiam",
sobre o funcionamento do regime, Carlos Fico chama de ficção
a idéia de resistência democrática. Ele também
ataca a crença de que a luta armada foi uma escolha motivada
pela imposição do AI-5.
- A opção de pegar em armas é
anterior ao ato institucional. Alguns grupos de esquerda
defenderam a radicalização antes de 1968 - garante
ele.
O professor da UFRJ defende que os confrontos armados
eram uma disputa sangrenta entre duas elites - o povo ficava de
fora, assistindo aos sobressaltos.
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