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Reale entre
os Mediocres
Olavo de Carvalho
Ao longo dos últimos anos, Miguel Reale raramente foi mencionado
nos jornais ou na tevê sem que viesse à baila, de novo
e de novo, obsessivamente, sua ligação de juventude
com o integralismo. Recentemente, nas comemorações
de seus 90 anos, o grande jurista e filósofo foi submetido
mais algumas vezes a esse ritual humilhante e insensato.
O integralismo foi um fascismo abrandado e inofensivo,
um ultranacionalismo sem racismo, que celebrava a glória
de índios, negros e caboclos. Entre os líderes do
movimento havia, é verdade, um anti-semita declarado, o excêntrico
historiador e cronista Gustavo Barroso, maluco não desprovido
de talento, várias vezes presidente da Academia Brasileira.
Mas, quando começou para valer a perseguição
aos judeus na Alemanha e todos os bem-pensantes do mundo fizeram
vistas grossas, foi do chefe supremo do integralismo, Plínio
Salgado, que partiu uma das primeiras mensagens de protesto que
chegaram à mesa do Führer (e na certa foi direto para
o lixo). Se os educadores deste país tivessem vergonha na
cara, esse feito quixotesco seria alardeado com orgulho em todas
as escolas - não por seus efeitos políticos, que foram
nulos, mas como símbolo do espírito de um povo que
nunca deixou seus melhores sentimentos serem sacrificados no altar
de fanatismos ideológicos.
Em vez disso, tratamos de escondê-lo, para
dar a criaturas inocentes e honradas o ar sinistro de cúmplices
de Hitler. Fazemos isso sob a inspiração de educadores
e intelectuais comunistas, que precisam mentir e caluniar o tempo
todo para disfarçar a co-autoria comunista de muitos dos
crimes do nazismo entre 1933 e 1941.
Os escritos de Plínio hoje nos parecem melosos
e de um hiperbolismo delirante. Politicamente, seu único
pecado é a completa tolice. Moralmente, são inatacáveis.
Ademais, o integralismo era católico - e sob o nazismo os
católicos, convém não esquecer, eram o terceiro
grupo na lista dos candidatos ao campo de concentração,
depois dos judeus e dos politicamente inconvenientes (v. Robert
Royal, Catholic Martyrs of the XXth Century, New York, Crossroad,
2000).
Que vergonha existe em ter seguido esse líder?
Nenhuma, evidentemente.
Porém, se um homem é induzido a explicar
isso de novo e de novo e de novo, como um suspeito num interrogatório
policial, ele acabará sempre dando a impressão de
que está escondendo alguma coisa. E é essa impressão
que nossos solícitos repórteres esquerdistas buscam
criar em torno de Miguel Reale.
Ninguém no mundo merece esse tratamento.
Mas quando a intelectualidade bem-pensante se reúne para
aplicá-lo a um sábio nonagenário a quem a Nação
deve algumas de suas maiores conquistas no campo das ciências
humanas, então é de suspeitar que estamos diante da
velha conspiração dos medíocres que enxergam
no gênio alheio a mais intolerável das afrontas.
No entanto, como a loucura de Hamlet, essa mediocridade
tem método. A malícia, a perversidade e a baixeza
do seu ardil, cujo uso se tornou institucional ao ponto de a breve
militância integralista ser mais destacada na imagem pública
de Miguel Reale do que as seis décadas e meia de formidáveis
realizações intelectuais que se lhe seguiram, mostram
a que ponto não só as idéias comunistas, mas
até os hábitos e reflexos da mente comunista se impregnaram
no modo de ser dos nossos jornalistas e da nossa classe letrada
em geral.
Mesmo pessoas que já não aprovam
conscientemente o marxismo são presas desses hábitos.
Após 40 anos seguidos de "trabalho de base" nas
redações, sem encontrar a menor resistência,
os comunistas conseguiram impor seus critérios ideológicos
como se fossem a única norma existente, a única norma
possível do bom jornalismo. Se nossa imprensa não
sabe falar de Miguel Reale sem uma genuflexão prévia
ante o altar dos preconceitos esquerdistas, é simplesmente
porque, nisso como em tudo o mais, ela simplesmente se habituou
à troca rotineira da informação pela desinformação.
Hoje em dia, milhares de jornalistas que de comunistas não
têm nada subscreveriam com a maior tranqüilidade a seguinte
declaração: "A missão da imprensa é
minar, pela crítica, as instituições vigentes"
- sem saber que a frase é de Karl Marx e que ela não
é uma receita de jornalismo e sim de revolução
comunista. Por isso, quando pensam estar fazendo jornalismo, estão
apenas ajudando o comunismo a sair do túmulo e a colocar
em seu lugar, no jazigo vazio, o Brasil.
Por ter escapado a esse cacoete vulgar, atendo-se
a discutir a obra do filósofo no plano que lhe corresponde
autenticamente, o caderno especial do JT consagrado a Miguel Reale,
semanas atrás, se destacou como um momento especialmente
nobre na história do nosso jornalismo, à altura, pelo
menos, da nobreza do homenageado.
http://www.olavodecarvalho.org/
Observação da pagina Integralismo.com.br
* Gustavo Barroso nunca foi anti-semita, ele era contra o sionismo,
movimento racista judaico.
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