Viva la Muerte!
A participação voluntária ao lado
de Franco na Guerra Civil Espanhola
Por: Marcus Ferreira - Publicado em 08.09.2003
- Revisado em 18.09.2003

A Legião Estrangeira Espanhola
Em 1916, aos 22 anos, Francisco Franco era apenas
um capitão, o mais jovem da Espanha. Havia um ano que fora
transferido para o Marrocos, colônia espanhola, onde poderia
ganhar mais e as promoções eram por bravura e não
por algum serviço administrativo, como na metrópole.
Lá enfrentavam a guerrilha local, que resistia a invasão.
Franco, sempre na linha de frente, fora ferido e condenado à
morte pelos médicos. Sua família foi chamada, e
seus superiores cogitaram lhe promover postumamente a major pela
bravura. Contrariando as expectativas sobreviveu e recuperou-se.
Exigiu e recebeu a promoção. Os inimigos criaram
a lenda que ele possuía “Baraka”, que seria
uma força misteriosa, “o sopro da vida”, que
o protegia.

Integralistas a caminho da Espanha, acompanhados de milicianos
Franquistas
Nos meses seguintes, o major Franco e seu amigo,
o coronel Millan Astray, alistaram mais 550 legionários,
e os instruíram para combater o chefe Abd-el-Krim. Finalmente
em uma licença, cinco anos depois de afastado de sua noiva,
casou-se com sua amada, tendo, para surpresa de seu sogro, a presença
do general Losada, representando o rei da Espanha, Afonso XIII.
Apesar das pesadas perdas, a Legião Estrangeira Espanhola
lutou com bravura, tendo Franco sempre na primeira linha de combate.
Ele e Millan Astray impuseram um código com oito itens
aos legionários:
I – O espírito legionário:
o único e substancial dever é a agressividade cega
e feroz: encurtar sempre à distância para o inimigo,
para atacá-lo com a baioneta.
II – O espírito de camaradagem:
"jurais que não abandonareis jamais um legionário
no campo de luta, mesmo com o risco de morrerem todos".
III – O espírito de união
e socorro: ao chamado – A mi la legion! – todos correrão
para prestar ajuda ao legionário, que, com ou sem motivo,
se encontra em perigo.
IV – O espírito de marcha: um legionário
jamais dirá que está cansado; antes preferirá
cair morto.
V – O espírito de dor e de resistência:
o legionário não se queixará de cansaço,
nem de dor, nem de fome, nem de sede, nem de sono.
VI – O espírito de disciplina: o
legionário cumprirá o seu dever até a morte.
VII – O espírito de combate: a legião
pedirá sempre para combater sem tréguas, sem contar
os dias, nem os meses, nem os anos.
VIII – O espírito de morte: morrer
em combate é a maior das honras. A morte liberta de todas
as dores e não é terrível, como parece. Mais
terrível é viver como covarde. A bandeira da legião
será a mais gloriosa, porque é manchada com o sangue
de legionário.
A Bandeira da Legião – É
a mais gloriosa por que está tingida com o sangue dos legionários.
Todos os homens legionários são
bravos, cada nação tem fama de bravura, aqui deve
demonstrar que pode ser mais valente.
De fato, lutar sob o comando de Franco não
era fácil. Diz-se que era inflexível, duro, minucioso
e exigente. Não fazia muitas amizades, mas jamais exigia
sacrifícios de sua tropa que não estivesse disposto
a exigir de si próprio. Suas tropas eram experientes, disciplinadas
e vorazes - como seu líder. Este homem e seus soldados
se levantariam contra a Frente Popular que ganhou as eleições
legislativas na Espanha.
A internacionalização de
uma guerra civil
Quando a revolta nacionalista começou,
Franco constatou que quase toda a Marinha e a Aeronáutica
estavam do lado republicano, e, com seu exército fora do
continente, seria impossível retomar a Espanha. Por isso
procurou apoio estrangeiro. As duas maiores potências anticomunistas
na época eram a Alemanha nazista, de Adolf Hitler, e a
Itália fascista, de Benito Mussolini. Havia também
Portugal, de Salazar, que se tornou seu amigo mais tarde. Franco
não hesitou em pedir auxílio. A ajuda alemã
chegou a partir de agosto de 1936, na forma de 50 aviões
Junkers Ju-86. Estes, somados aos aviões de transporte
italianos, serviram para o transporte dos primeiros soldados e
material bélico. A “Legião Condor”,
comandada por Ritter Von Thomas era formada por voluntários
da Luftwaffe [a força aérea alemã]. Habilmente
treinados e perfeitamente disciplinados, colocariam em prática
as táticas que até então eram apenas teorias
sobre a guerra aérea e o bombardeio terrestre.
Os italianos colaboraram com dezenas de milhares
de soldados e milhões de liras para a compra de armas e
suprimentos. Os italianos tiveram milhares de baixas no conflito.
Portugal enviou a “Legião de Viriato”, composta
por 20.000 voluntários, que sofreu também perdas
consideráveis. A Legião Viriato foi formada pelo
major Jorge Botelho Moniz, presidente do Rádio Clube Português
e amigo de Oliveira Salazar. Este deixou simplesmente que a idéia
da Legião prosseguisse, mas não se responsabilizou
por ela. É de Oliveira Salazar a frase que descreve melhor
este momento: "a internacionalização de uma
guerra desenvolvendo-se no quadro de um território nacional".
Quando a guerra começou e se tornou conhecida
ao mundo, começaram a chegar novos voluntários,
que formaram a “Legião Joana d’Arc”.
Cerca de 600 irlandeses, 10 ingleses e 100 franceses. Chegou também
uma companhia de russos brancos, e sete membros da Guarda de Ferro
romena. Da América do Sul chegaram grupos de argentinos
e uruguaios, entre outros - há indícios da participação
de brasileiros ao lado de Franco no conflito, mas minhas pesquisas
ainda não provaram isto. Estes voluntários eram
monarquistas, fascistas, nacionalistas, católicos ou até
mesmo descendentes de espanhóis. Em comum só o anticomunismo.
Ação irlandesa e romena
A motivação dos irlandeses foi
basicamente o ódio aos comunistas. Eles ouviram que "os
vermelhos estavam queimando igrejas e caçando padres e
freiras". O grupo foi liderado por Eoin O'Duffy, líder
dos "camisas azuis", movimento fascista irlandês.
A viagem foi patrocinada por católicos e por jornais nacionalistas.
Partiram de Dublin, em 13 de novembro de 1936. Formaram a 15ª
bandeira da Legião Estrangeira Espanhola. Ao chegarem em
Jarama, em 11 de Fevereiro de 1937, se envolveram em um combate
ferrenho na linha de frente, enfrentando as Brigadas Internacionais.
Ambos os lados tiveram enormes baixas. A unidade foi retirada
de combate, para praticamente não mais lutar. O’Duff
retornou a Espanha em 1938, publicando o livro Crusade in Spain,
onde se vangloria da luta anticomunista. Faleceu em 1944, sendo
enterrado com honras militares.
A Guarda de Ferro romena, conhecido como um movimento
legionário, também enviou um grupo meramente simbólico
para o conflito. Eram todos líderes do movimento, que participaram
de sua fundação e organização. Muitos
outros se propuseram a partir, mas o movimento não tinha
recursos para a viagem. Partiram em 24 de novembro de 1936, e
a tropa era liderada por Ion Mota, cunhado do líder da
legião Corneliu Codreanu - além dele, foram o padre
ortodoxo Dumitrescu Borsa e outros cinco voluntários. Chegando
à Espanha, foram incorporados à 21ª companhia
da Legião Estrangeira Espanhola, sob o comando do coronel
Yague. Em 13 de janeiro de 1937, defenderam a cidade de Majadahonda
de um ataque republicano. Tiveram dois mortos, um ferido e um
doente, e vitoriosos, se retiraram dos combates voltando para
seu país. Os romenos da Guarda de Ferro, após breve
período em que administraram o país ao lado do ditador
Ion Antonescu, desde divergiram e foram internados pelos alemães
no campo de concentração de Buchenwald. Depois foram
liberados pelos alemães para se defenderem da invasão
russa, em 1945, quando já era tarde demais. Após
a guerra muitos fugiram do país, inclusive para o Brasil.
Os que foram para a Espanha, fizeram um grande monumento em memória
de seus mortos, Ion Mota e Vasile Marin, na cidade onde tombaram.
O Brasil na rota nacionalista
Alguns grupos de voluntários da América
do Sul passaram pelo Rio de Janeiro, em 1936, em direção
à Espanha. No Brasil existia a Ação Integralista
Brasileira, partido nacionalista fundado em 7 de outubro de 1932,
liderado por Plínio Salgado, seu “Chefe Nacional”.
A AIB tinha afinidades ideológicas com a falange de Primo
de Rivera, e apoiava a ação anticomunista de Franco.
Na então Capital Federal, atual Cidade
do Rio de Janeiro, estava o jornal A Offensiva, seu principal
órgão noticioso. A sede do jornal recebeu dois destes
grupos voluntários. O primeiro grupo, chegou em 9 de setembro
de 1936, e era formado por 10 espanhóis e 3 uruguaios.
O grupo era procedente de Buenos Aires e Montevidéu. Chegou
no paquete alemão General San Martin. Os uruguaios, Antonio
Arribas, Benito Arribas e Bernardo Corrosso eram aviadores. Os
argentinos, Carlos Castro, Amélio Fernandez, Manoel Mendez,
Juan Arregri, Antonio Dapena, Ramon Ramoni, Benito Átrio,
Laureano Casero e Rufo Arguñarena eram milicianos.
Em 1º de setembro chegou outro grupo, no
vapor General Artigas. Eram liderados pelo Chefe Nicolas Guintane
e pelo sub-Chefe Enrique Rodrigues. Estavam com eles Sebastian
Cereceda e Emílio Rosado. Foram recebidos pelo segundo
no comando na AIB, Gustavo Barroso, e pelo diretor do jornal,
Madeira de Freitas. Este, empolgado com aqueles homens, escreveu
no editorial do dia 4 de setembro:
Vi-os, quando, atraídos pela força
do ideal comum, procuraram a redação de A Offensiva.
Saudei-os, como integralista, em nome e por ordem do Chefe Nacional.
E vendo-os, adivinhei quanto de grave, de sublime e de transcendente
lhes iluminava o olhar, onde um brilho estranho falaria bem mais
alto do que as suas palavras de retribuição “al
saludo de los hermanos del Brasil”.
(...) Integralistas e camisas-azuis, compreenderam-se.
E marcham, com os patriotas do mundo inteiro, para a apoteose
da grande epopéia, para o raiar de uma nova aurora, ao
ritmo novo de um novo conceito de vida, o conceito da própria
dignidade humana.
Finalmente, em 13 de janeiro de 1937, chegou
ao Rio de Janeiro, de Sevilla, e indo para Buenos Aires, Raul
Iglesias, agente da falange espanhola. Este estava em Barcelona
no início das hostilidades, e se alistou no Exército
de Moscardo. Recuou com estes para Alcazar, e lá ficou
cercado durante meses. Levantado o cerco, participou do ataque
bem sucedido a Irun. Lá, se tornou emissário da
Falange e foi enviado para a Argentina. Na ocasião, disse:
“Pode publicar em seu jornal que a Espanha não é
comunista e que os espanhóis nacionalistas estão
certos da vitória pela confiança que tem no general
Franco e pela fé que tem em Deus”.
A guerra se torna mundial
Terminada a Guerra Civil, marcada pela extrema
violência de ambos os lados em conflito, Franco começou
a lenta reestruturação do país. Logo começou
a 2ª Guerra Mundial, e lhe foi cobrada uma posição
no conflito. O encontro com Hitler foi em 13 de Novembro de 1940,
em Hendaye, na França. O encontro com Mussolini foi em
7 de Março de 1941, em Bordighera, na Itália. Franco
optou pela neutralidade enviando para a Alemanha apenas uma divisão
de infantaria, conhecida como “Divisão Azul”,
a de número 250 da Wehrmacht, comandada pelo Generalmajor
Muñoz Grandes. Esta divisão era composta por voluntários
espanhóis, na maior parte falangistas, e por cerca de 15
portugueses, ex-membros da Legião Viriato. Engajou-se na
luta no setor de Leningrado, na Rússia, até ser
retirada de combate, com cerca de seis mil baixas.
Dos portugueses desta divisão, somente
um retornou vivo. A maior parte morreu no frio de 35º abaixo
de zero das estepes russas. Chamava-se João Rodrigues Júnior.
Este, em 1936, depois de ter cumprido o serviço militar,
partiu para Espanha, onde havia começado a guerra Civil,
e se alistara na Legião Estrangeira Espanhola. Em 1941,
terminaria seu contrato de cinco anos com a Legião, mas
decidiu por renová-lo para lutar contra o comunismo. Em
1942, aos 26 anos, retornou para sua casa, ainda um idealista.
Fontes:
Revista A Esfera. Portugal, 1942.
Jornal A Offensiva. Rio de Janeiro, 1936-1938.
Carap, Julia. Delírios e destinos. Niterói, RJ:
Muiraquitã. 1997.
Legiunea In Imagini. Madrid: Editura Miscárii Legionari,
1977.
Trindade, Hélgio. Integralismo: o fascismo brasileiro.
São Paulo: DIFEL/URGS, 1977.