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O Soldado Kozel

Pedro ErnestoLuna

Jamais vou esquecer aquela madrugada do dia 26 de junho de 68. Os gritos que são os únicos que, mais de 30 anos depois, conseguem atravessar a minha surdez, juntam-se à visão da fumaça, do sangue e do fogo. Estava os em
tempos de exceção. Sem dizer a que viera, sem nenhuma proposta social ou política, um grupo armado resolvera aterrorizar o país. Assaltando bancos, seqüestrando, explodindo repartições e lugares públicos.

O país estava de sobreaviso, particularmente nós, jovens, que servíamos o Exército.
Naquela noite, estava de sentinela e acabara de ser substituído pelo soldado Mário Kozel Filho. Recolhi-me à casa da guarda para dormir algumas poucas horas até a alvorada, quando ouvi a explosão lá fora. Corri para o portão
das armas. Abalroada contra a parede uma caminhonete ardia em chamas. Ao lado dela o soldado Kozel jazia morto. Atropelado. Explodido. O primeiro pensamento que me veio foi de que poderia ter sido eu!
Mais tarde fiquei sabendo que o atentado ao QG da Rua Abílio Soares, em São Paulo, fora de autoria da Ala Marighella da Vanguarda Palmares. Que teve o planejamento de um capitão do Exército que, posteriormente, desertou para a guerrilha.

Um capitão do Exército! Um homem que conhecia as nossas rotinas, o nosso armamento, o nosso grau de treinamento, as nossas limitações! Um homem que nos traiu e, mais tarde, desertou levando o armamento do quartel. Um desertor que, no caso de guerra, seria fuzilado. Não ponho em questão as suas simpatias ideológicas. Mas trair a sua instituição! Ao que eu saiba, o próprio senhor Luiz Carlos Prestes, que foi um ícone do comunismo no país, teve a decência de desligar-se do Exército antes de assumir os seus ideais.

Leio agora na imprensa, que a família do soldado Kozel vai começar a receber uma pensão de 300 Reais! Leio também que, aquele capitão teve o seu nome reabilitado e a sua família, além de ganhar uma pensão cerca de 20 vezes maior da que a soldado Kozel, recebeu o soldo acumulado pelo tempo estimado em que ele permaneceria em serviço! Já pensaram, 20 anos de salários acumulados, sem despesas e sem descontos! Para um elemento que desertou o seu posto e a sua honra, abrindo mão de quaisquer proventos da instituição que traiu!
O grupo que matou o soldado Kozel agora está no poder. Tão sem propostas e sem soluções como estavam naquela época. Onde está a justiça dos homens?