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O Judaísmo fala sobre Cremação e Autópsia

Rabino Adrián Gottfried

O tratamento apropriado do corpo depois da morte é definido na lei judaica por três princípios primários. Um é ‘kavód hamét’ honra do morto: nós devemos honrar a memória do falecido, e como parte disso, ter o cuidado apropriado com o seu corpo.

Tratar o corpo com respeito é exigido também pela questão teológica de que o corpo, mesmo na morte, continua sendo propriedade de Deus.

A honra ao cadáver, então, é fundamental nos costumes do enterro: fechar os olhos do falecido, preservar a modéstia mesmo na morte tendo mulheres preparando um corpo feminino para o enterro e homens para um corpo masculino, lavando o corpo antes do enterro e vestindo-o com a mortalha fúnebre, enterrando o corpo assim que possível após a morte num caixão para que os espectadores não percebam a sua desintegração, e convocando os familiares e amigos para dizer preces em sua memória e louvar o falecido.

O segundo princípio judaico relevante de como os judeus devem tratar o corpo após a morte é ‘chessed’. O Judaísmo inclui um conjunto de leis muito desenvolvido exigindo que os judeus ajudem àqueles que precisam.

Quando a ajuda oferecida é financeira "doação de dinheiro ou ajudando as pessoas a encontrar maneiras de se sustentarem "a palavra usada é tzedaká, (literalmente "justiça").

Quando alguém ajuda uma pessoa de outras maneiras, a palavra que descreve o valor e a atitude dessa assistência é ‘chessed’.

Chessed, significando originalmente um ato feito pela lealdade ao nosso próximo, veio a significar também atos de bondade, cuidado, e preocupação. Portanto, enquanto os atos de tzedaká são legalmente obrigatórios, atos de chessed não são, mas eles têm um degrau de obrigação além do conotado pela palavra "caridade" como a seguinte citação deixa claro:

"Andar nos seus caminhos" (Deuteronômio II:22). Estes são os caminhos do Todo Poderoso: "benevolente e compassivo, paciente, repleto de bondade e fidelidade, inspirando amor para mil gerações, perdoando a iniquidade, transgressão, e pecado, e concedendo o perdão..." (Êxodo 34:6). Isto significa que assim como Deus é benevolente e misericordioso, vocês também devem ser benevolentes e misericordiosos. "O Senhor é justo em todos os Seus caminhos e amoroso em todos os seus atos" (Salmos 145:17). Assim como o Todo Poderoso é justo, vocês também devem ser justos. Assim como o Todo Poderoso é amoroso, vocês também devem ser amorosos.

"Sigam o Senhor vosso Deus" (Deuteronômio 13:5). O que isto significa? É possível para um mortal seguir a Presença de Deus? O versículo é para nos ensinar que nós devemos seguir os atributos do Todo Poderoso, louvado seja. Assim como ele veste os que não têm roupa,... vocês devem vestir os que não têm roupa. A Bíblia nos ensina que o todo Poderoso visitou o doente... vocês também devem visitar o doente. O Todo Poderoso confortou os que estavam de luto... vocês também devem confortar os que estão de luto. O Todo Poderoso enterrou os mortos...; vocês também devem enterrar os mortos.

Os conceitos básicos sobre a obrigação de ajudar os que precisam com atos de chessed estão entre os mais centrais e fortes na Tradição Judaica. Eles incluem o significado, privilégios, e responsabilidades dos membros na comunidade; compaixão pelo nosso próximo; obediência aos mandamentos de Deus de nos preocuparmos com os outros e de agirmos para ajudá-los; a necessidade de preservar a dignidade das criaturas de Deus; a obrigação de viver para cumprir o Pacto com Deus, incluindo as promessas e expectativas inerentes a esse relacionamento; e o mandamento de aspirar à santidade e imitação de Deus.
Não é de surpreender, então, que este conceito e as obrigações que derivam dele ocupem um lugar central nas mentes dos judeus conectados à tradição, e não é de surpreender que eles sejam um fator importante " assim como o background psicológico, mesmo se não for como base legal " nas atitudes dos judeus e do Judaísmo em relação ao enterro dos mortos e transplantes de órgãos.

O terceiro princípio que desempenha papel principal nos tópicos deste capítulo é pikúach néfesh, a obrigação de salvar a vida das pessoas. Esste princípio está tão profundamente incorporado na lei judaica que, de acordo com os rabinos, ele tem precedência sobre todos os outros mandamentos exceto assassinato, idolatria, e relações sexuais de adultério e incesto.

Os judeus tem o mandamento de fazer virtualmente tudo o que for necessário para salvar as suas próprias vidas; também são obrigados pelo mandamento positivo de tomar atitudes para salvar a vida dos outros.

Cremação

A lei judaica proíbe a cremação, que é a maior forma de desonrar os mortos. A cremação também representa a destruição ativa da propriedade de Deus e é imprópria também por esse motivo. Ainda mais, nas gerações posteriores à câmara de gás de Hitler, é difícil entender como nós poderíamos fazer com os seres que amamos a mesma coisa que Hitler fez com o nosso povo. Apesar de que a intenção daqueles que cremam os seus mortos ser claramente diferente da de Hitler, a cortina de fundo do cenário das câmaras de gás não pode deixar de afetar o significado transmitido ao descartar o morto dessa maneira. O simbolismo é totalmente errado, comunicando desprezo pelo morto ao invés do amor e do respeito que nós queremos expressar ao nos separarmos deles.

A cremação é, com certeza, mais barata que o enterro, e isso, mais do que qualquer outra coisa, motiva alguém a cremar o seu morto. Os fatores delineados no parágrafo acima, entretanto, tornam a cremação uma resposta inadequada à necessidade de tornar o enterro possível (em termos de $$). O enfoque adequado é educar os judeus para que evitem caixões caros e para usar, ao invés disso, a caixa simples de madeira de acordo com a lei judaica, para expressar modéstia e igualdade na morte. Além disso, cada sinagoga deve estabelecer a sua própria "sociedade sagrada" (chevrá kadishá) para lidar com os mortos, primeiramente pelo mérito de fazer o que os membros da comunidade devem fazer um pelo outro, mas também para ajudar a reduzir o custo do funeral tradicional. Finalmente, nesses casos de sofrimento quando o enterro está realmente fora de alcance, a comunidade judaica deve se certificar de que a família em questão vai poder enterrar o seu morto a um custo reduzido ou sem nenhum custo; alguns diretores de funerais judaicos já prestam esse serviço a essas famílias. Dinheiro, então, é honestamente e legitimamente uma preocupação para as famílias que devem lidar com o que sobrou do seu morto, mas a comunidade judaica não deve permitir que seja um fator determinante para preferir a cremação ao enterro.

Autópsias

Autópsias já eram conhecidas no mundo antigo, mas as fontes judaicas olharam desconfiadamente para elas como uma violação da dignidade humana. No século XIX e especialmente no século XX, entretanto, como a perspectiva de adquirir conhecimento médico através de autópsias aumentou consideravelmente, muitos rabinos se tornaram mais confiantes sobre elas. Um até sugeriu uma campanha popular para persuadir as pessoas a concederem um consentimento por escrito para fazer autópsia, como um serviço à medicina.

Uma posição definitiva foi anunciada pelo rabino chefe de Israel Isaac Herzog - em seu acordo de 1949 com o Hospital Hadassa em Jerusalém. Com este acordo, as autópsias somente seriam aprovadas somente se houvesse uma das seguintes condições:

1 - A autópsia é legalmente exigida.
2 - Na opinião de três médicos, a causa da morte não pode ser assegurada de outra maneira.
3 - Três médicos atestam que a autópsia pode ajudar a salvar a vida de outras pessoas que sofrem de uma doença similar àquela que causou a morte do paciente.
4 - Quando uma doença hereditária está envolvida, a realização da autópsia pode proteger a vida dos parentes que sobreviveram.

Em cada caso, aqueles que realizam a autópsia devem fazê-lo com reverência ao morto, e ao completarem a autópsia, eles devem entregar o cadáver e todas as suas partes à sociedade funeral para o sepultamento. Este acordo foi incorporado à lei israelense quatro anos mais tarde.

Quando uma autópsia é justificada, seja por motivos legais ou médicos, não é interpretada como uma desonra ao morto, mas, pelo contrário, como um uso honrável do corpo para ajudar os seres vivos. De fato, assume-se que a pessoa morta em si, se lhe perguntassem, quer que a autópsia aconteça se ela puder alcançar o objetivo médico ou legal a que se destinava. Isto é, a questão não é tanto uma preferência do princípio de salvar uma vida (pikúach néfesh) sobre aquele da honra devida ao morto (kavod hamét), mas ao invés disso uma forma diferente de preservar a honra do falecido em contextos onde salvar a vida de outras pessoas é possível.

Em anos recentes, tem havido uma controvérsia considerável sobre autópsias em Israel porque elas se tornaram rotina, e portanto o governo mudou a lei em 1980 para tornar as autópsias mais difíceis de serem justificadas, para a consternação do pesquisadores médicos israelenses. Novos procedimentos, assim como biópsias de agulhas numa massa palpável, ou uma peritoneoscopia com biópsia, logo devem alcançar a maioria dos mesmos objetivos médicos assim como as autópsias fazem sem invadir o cadáver no mesmo nível, e esta seria claramente uma forma preferível sob o ponto de vista judaico; mas nesse meio tempo, as autópsias continuam sendo permitidas se há um motivo médico ou legal específico para permitir um caso em particular.