dd

Nacionalismo e esquerdismo nas Forças Armadas

Félix Maier

1 - Introdução

Como outras instituições da sociedade brasileira, as Forças Armadas também têm sofrido a influência da ideologia comunista desde que foi criado no Brasil, em 25 de março de 1922, o Partido Comunista-Seção Brasileira da Internacional Comunista (PC-SBIC), que depois de 1934 passou a denominar-se Partido Comunista do Brasil e, em 1960, Partido Comunista Brasileiro (PCB).

Desde então, os comunistas já tentaram tomar o poder no Brasil em três ocasiões: com a Intentona Comunista (1935); durante o Governo João Goulart (1961-64); e durante os "anos da matraca", que teve início em 1968, no auge da "Revolução Estudantil" que agitou todo o mundo Ocidental, e terminou em 1974, depois de um bem-sucedido trabalho repressivo das Forças de Segurança, com o desbaratamento dos grupos terroristas, atuantes principalmente em São Paulo e no Rio de Janeiro, e o fim da Guerrilha do Araguaia, ocorrida no Sul do Pará.

O nacionalismo nas Forças Armadas - mormente o do Exército -, por sua vez, confunde-se com os primeiros movimentos nativistas surgidos ainda na época do Brasil colônia, como a invasão holandesa em Pernambuco. Quanto à influência comunista nas Forças Armadas, pode-se acrescentar que sempre houve uma pregação do nacionalismo por parte das correntes esquerdistas, de modo a cooptar o sentimento patriótico dos militares. Foi assim em todas as ocasiões em que a esquerda tentou tomar o poder, sempre colocando o sentimento nacionalista do militar brasileiro - um sentimento, em si, justo e digno - contra a influência do "imperialismo" capitalista mundial, especialmente o norte-americano, tido pelas esquerdas como o maior entrave à soberania e ao desenvolvimento nacionais.

Com a queda do Muro de Berlim, em 1989, e o fim da União Soviética, em 1991, a tática das esquerdas para a tomada do poder no Brasil modificou-se, embora a estratégia de socializar (ou comunizar) o País continue a mesma. O PCB, que nas últimas décadas pregava a conquista do poder pela via eleitoral, entrou em crise existencial com o fim da "Mãe Rússia" e, à semelhança do Partido Comunista Italiano (PCI), renegou muitos dos princípios marxistas-leninistas para se tornar o Partido Popular Socialista (PPS). O Partido dos Trabalhadores (PT), que nasceu do movimento sindical do ABC paulista, em 1980, foi o que mais cresceu nas últimas décadas, atingindo o apogeu em 2002, com a eleição para presidente de sua estrela maior, Luiz Inácio "Lula" da Silva.

Depois da Guerra do Golfo (1991), quando o Presidente norte-americano George Bush anunciou a "Nova Ordem Mundial", com os EUA se tornando a única superpotência militar e econômica do planeta, o sentimento "patriótico" e "nacionalista" dos militares brasileiros foi novamente sacudido pelas classes pensantes do País, fossem elas de esquerda ou não. Com a crescente globalização econômica, muito mais do que o simples sentimento nacionalista, avulta outro problema crucial para as Forças Armadas brasileiras: a busca de uma identidade própria e de uma finalidade específica dentro das instituições nacionais. No passado, essa identidade casava-se com os anseios nacionais, como o lema "Segurança e Desenvolvimento", tanto presente no longo Governo Getúlio Vargas (1930-45), que foi endossado pelas Forças Armadas, quanto nos governos militares pós-1964.

No momento, para a esquerda, o "perigo" americano continua ainda mais ameaçador do que no passado e tem um endereço: a Amazônia, com sua rica biodiversidade e jazidas de minérios raros, como o nióbio. Os militares foram chamados a "defender" a região amazônica contra a "cobiça internacional", especialmente depois de o presidente da França, François Mitterrand, e o ex-presidente da União Soviética, Mickail Gorbachev, terem afirmado que "a Amazônia é um patrimônio da humanidade". Como resultado dessa nova política de segurança nacional, muitas unidades do Exército foram deslocadas do Rio Grande do Sul e do Rio de Janeiro para a região amazônica, já que os vizinhos platinos, especialmente a Argentina, não eram mais vistos como o inimigo número um do Brasil, principalmente depois de entrar em vigor o Mercado Comum do Cone Sul (Mercosul), que engloba a Argentina, o Brasil, o Paraguai e o Uruguai.

Nas últimas décadas, depois do fim dos governos dos generais-presidentes (1985), os militares das Forças Armadas brasileiras retornaram aos quartéis e passaram a se dedicar exclusivamente à sua atividade-fim, ou seja, à instrução de suas tropas. No início, com a redemocratização do Brasil, pode-se afirmar que não houve grande influência das esquerdas dentro das Forças Armadas, ainda conscientes dos malefícios que a "hidra vermelha" havia acarretado tanto ao País. Durante as três tentativas de tomada do poder pelos comunistas, muitos militares desempenharam importante papel ao se aliarem à esquerda, a exemplo do capitão Luiz Carlos Prestes (Intentona Comunista), do general Osvino Ferreira Alves (Governo Goulart) e do capitão Carlos Lamarca, comandante do grupo terrorista VPR, atuante depois da Contra-revolução efetuada pelas Forças Armadas em 1964.

Atualmente, depois da onda de revanchismo contra as Forças Armadas promovida pelo Governo Fernando Henrique Cardoso, quando familiares de terroristas comunistas como Carlos Lamarca e Carlos Marighela foram premiados com indenizações milionárias, os militares brasileiros estão se sentindo acuados, muitos sendo demonizados pela imprensa - que é totalmente controlada pelas esquerdas -, acusados, sem provas, de terem sido torturadores durante o "regime militar". Enquanto isso, a esquerda se aproveita de episódios internos e externos para "revigorar" o nacionalismo dos militares, especialmente quando se trata de incutir neles um sentimento antiamericano renovado e redobrado. Isso pode ser exemplificado por três fatos recentes: o repúdio ao ingresso do Brasil na ALCA, a discussão sobre a permissão de os norte-americanos utilizarem ou não a Base de Lançamentos de Alcântara, no Maranhão, e a Guerra no Iraque, iniciada em março de 2003 pela coalizão anglo-americana para desalojar Saddam Hussein do poder.

Assim, está aumentando, ultimamente, a influência da esquerda nas Forças Armadas, especialmente entre os militares mais jovens, que não presenciaram os violentos "anos da matraca" e hoje estão sendo domesticados pela mídia em geral, como micos adestrados, tendo seus cérebros lavados pela "Grande Mentira" propalada pela esquerda, qual seja: a de que ela, a esquerda, lutou nos anos de 1960 e 70 para derrubar a ditadura militar e implantar a democracia no Brasil. Sabemos que isso não corresponde à verdade, pois todos os grupos terroristas atuantes naquela época, marxistas das mais diversas linhas, como a soviética, a cubana, a chinesa e a albanesa, queriam implantar em nosso País a ditadura do proletariado. Ou seja, o comunismo, nunca a democracia. Se muitos dos militares brasileiros já têm sua opinião pré-formada pela mídia esquerdista no dia-a-dia, o que dizer daqueles militares que freqüentam as universidades - hoje em grande número, não só oficiais, mas também sargentos – onde convivem com a nata da intelectualidade marxista?

Com a criação do Ministério da Defesa, em 1999, finalizou-se o cerco às Forças Armadas, que perderam expressão política quando os antigos ministros militares se tornaram meros comandantes de suas Forças singulares, sob ordem de um ministro civil. Ironicamente, essa manobra política foi praticamente uma imposição do Governo dos EUA ao Governo FHC, apoiada sem restrições pelas esquerdas brasileiras. Para os EUA, interessam Forças Armadas brasileiras subordinadas a um comando civil, como ocorre lá, para diminuir a chance de haver movimentos e golpes militares que ocorreram desde o início da República, em 1889. As esquerdas, por sua vez, preferem que as Forças Armadas brasileiras sejam totalmente domesticadas, preferencialmente dirigidas por uma ideologia de esquerda, para que se atenham à defesa externa e, internamente, sejam meras milícias populares subordinadas ao poder civil, sem nenhum poder político ou, pelo menos, que sejam inertes, inócuas, apolíticas e "legalistas" durante os embates ideológicos mais extremistas que vierem a ocorrer.

Por que a doutrina comunista se mostra tão atual e tão poderosa no Brasil, onde tremulam bandeiras vermelhas totalitárias nas manifestações de rua, se ela foi varrida de extensas áreas do planeta, como na antiga União Soviética, e está em baixa na própria China "comunista"? O que ocorreu com nossa "Cólquida", com a terra de Macunaíma e a roça de Jeca Tatu? (1) Uma das explicações é que nunca houve um regime comunista em nosso País, assim a população não conhece o perigo que isso significa. Outra explicação é que o Brasil não conseguiu, nas últimas décadas, "decolar" junto com outros países capitalistas, como a Coréia do Sul, pelo contrário, até regrediu em seu desenvolvimento sócio-econômico, caindo de 8º para 13º lugar quanto ao Produto Interno Bruto (PIB) entre as nações, recolocando vasta parte da população na miséria - situação ideal para a atual pregação das esquerdas, com suas bandeiras contra o "neoliberalismo" e a "globalização". Tanto antes, quanto agora, a cantilena comunista tenta hipnotizar a população brasileira, apresentando as chagas nacionais da miséria e da exploração do trabalho de vasta parte da população, tentando fazer acreditar, dentro da lógica igualitária, como sendo a única salvação para todos os males nacionais. Assim, o comunismo, "de maneira persistente e com grande eficiência, explora nossas falhas, contradições e desníveis sócio-econômicos e levanta as bandeiras das reivindicações mais justas e das aspirações mais sentidas de nosso povo" (SAMPAIO, 1966:12). Desta forma, o "Jeca Tatu" e "Fulana" são convencidos a buscar as causas do nosso subdesenvolvimento, não em nossos seculares erros e omissões da corrupta terra de Macunaíma, mas num aludido e fantasioso abuso do "imperialismo" de Tio Sam.

Avançar >>