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Análise do Relatório da Unicamp Publicada no livro "Burla Eletrônica",
de A chegada do relatório Ao cair da tarde do dia 29 de Maio de 2002, os presentes
no Seminário do Voto Eletrônico realizado no Espaço
Cultural da Câmara dos Deputados encerravam os debates comungando,
com a possível exceção dos espiões, um forte
sentimento de civilidade. Suas inquietudes e perplexidades sobre o sistema
recém construído com aquilo de mais moderno para o exercício
da cidadania brasileira, ali expostas e refletidas, causaram poderosa
catarese. Esse leviatã, coberto pela grande imprensa e por autoridades
eleitorais com um véu de fatalismo e perfeição mistificantes,
desvelava-se numa imagem assustadora, integrada por combinações
desmistificantes de inépcia, interesses indefensáveis, penumbras
de discrepâncias, velhos vícios de quem se acha no direito
de usucapião sobre o Poder, e o perigoso fascínio por uma
varinha de condão, vendida nos mais sofisticados mercados de hoje
como produto tecnologia-enquanto-pancéia. Fui para casa assistir aos telejornais. Tinha sido entrevistado por três redes de TV e queria ver quais iriam dar matéria sobre o assunto. E se dessem, como editariam as minhas falas. Nenhuma delas deu. Nada sequer sobre o Semiário. Mostraram apenas o presidente do TSE entregando o relatório da Unicamp ao presidente do Senado, e proclamando a frase que custou aos contribuintes quase meio milhão de reais. O sistema informatizado de eleições – a Unicamp acaba de comprovar – é “robusto, seguro e confiável”, dizia. O contraponto da estória – a quem se responde, quais dúvidas se redime – era nas entrelinhas a sua própria ausência. Lembrei-me daquela outra frase, a do Senador Tuma. Peguei imediatamente o telefone e liguei para a jornalista que me entrevistara sobre o tema, havia duas semanas. Ela havia me dito que teria o relatório em primeira mão, pois cobria os Tribunais Superiores em Brasília para o seu jornal. Haviam lhe prometido. -- “Você tem uma cópia do relatório?”, perguntei. -- ”Não. Estou decepcionada, pois haviam me prometido”, respondeu ela. -- “O Relatório foi entregue pela comissão da Unicamp ao TSE há cinco dias”. Disse-lhe, conforme haviam me informado colegas da Unicamp. Um dos membros da comissão que elaborou o relatório, a quem dedico apreço e amizade, também havia me informado que a comissão só o divulgaria para o contratante, o TSE. -- ”Ele só foi divulgado hoje à tarde, no Congresso. Apenas os presidentes da Câmara e Senado receberam cópia. Eu e os demais jornalistas interessados recebemos apenas um release de uma página, dizendo basicamente o que o presidente do TSE disse no Congresso, diante das câmaras de TV. Amanhã vou lá cobrar a promessa da minha cópia”. -- ”Se quiser, quando receber estarei à disposição para lhe ajudar a entender” -- “Obrigada. Entrarei em contato” Às 11 horas do dia seguinte, chegava à minha porta um motorista do jornal, com uma cópia do relatório da Unicamp para me entregar, enviada pela mesma jornalista. Debrucei-me sobre o documento e comecei a analisar seu conteúdo linguísico, a partir daquela frase “abracadabra”, pinçada daquelas 54 páginas para nos ser oferecida como rara pepita. Na intimidade dos nossos lares e em horário nobre, na voz do presidente do TSE pelas câmaras de TV, pronunciada do Congresso Nacional com a devida pompa. Às 15 horas, telefonei-lhe novamente. Acabara de decifrar a roteiro retórico da peça literária que ela, tão gentil e agilmente, havia posto em minhas mãos. Analisando a Introdução do Relatório Logo na sessão de abertura e no primeiro item do documento, na Introdução (1), estava registrada a natureza do trabalho contratado. Conforme alertara o moderador do Forum do Voto Eletrônico, inclusive na introdução deste livro, não se trata de um trabalho de avaliação externa do sistema, como originalmente proposto e reiteradamente insinuado. A participação do Poder Legislativo na demanda e controle desta avaliação, através da lista de quesitos e assistentes nomeados pela Comissão de Constituição e Justiça do Senado Federal para acompanhar os trabalhos, constantes da proposta inicial dirigida à Unicamp, não mais constavam da peça contratual que ensejou esta análise, firmada entre o TSE e a Fundação de Desenvolvimento da Unicamp, conforme reconhecem no documento os itens "Apresentação: Composição da Comissão de Avaliação" (1.1) e "Objetivo e escopo" (1.2). Inicia o item 1.2 afirmando:
Pergunte-se: Em que sentido vulnerabildades comprometedoras dos requisitos fundamentais de um tal sistema seriam eventuais? Como prescrutar ou medir a eventualidade? Em que sentido uma deficiência na auditabilidade da operação do sistema se adiciona a suas eventuais vulnerabilidades? Não sendo uma tal deficiência uma vulnerabilidade especial, seria ela de pouca relevância? A participação de um interesse prejudicável, e distinto dos que possam animar aqueles que respondem pelo sistema, na definição do objetivo e escopo desta análise, visa estabelecer limites à subjetividade nas respostas que precisam ser encontradas para essas perguntas. Tais limites são necessários para a eficácia de uma análise como esta. Não mais ali representados os interesses do Congresso Nacional, equivocado seria atribuir-lhe a demanda por esta análise, demanda que antes houve mas cujo teor ali se mutila. Mesmo transfigurada, esta demanda foi sugerida como origem do relatório pelo mestre de cerimônias da sua apresentação, seu verdadeiro demandante. A comissão contratada para conduzir os trabalhos, escolhida por sua suposta e testada neutralidade, trabalhando sob os auspícios exclusivos do contratante – o mesmo responsável pelo sistema – encontrou-se, dessa feita, livre para interpretar o que sejam eventualidade e adicionalidade no objetivo e no escopo de sua análise, à penumbra desses auspícios. Pelo que se possa obstar a esta interpretação, ilumine-se a parte do documento referente à engrenagem contratual que lhe enseja. O documento encerra sua "Apresentação" (1) dizendo:
Em parte alguma do documento encontra-se qualquer esclarecimento sobre a natureza desta interveniência. Há, porém, uma parte do documento – de qualquer documento desta natureza – na qual aquilo que a penumbra abstrai virá se revelar, por intermédio dos seus efeitos. Na conclusão, podemos vir a entender os sentidos de eventualidade e de adicionalidade que a comissão escolheu abraçar para objetivar seu trabalho. Analisando as Conclusões do Relatório A frase de abertura das Conclusões (6) é a tal frase abra-cada-brado [em defesa do sistema com ela]:
A licença poética para comentar esta frase-síntese,
refrão que enche a boca de âncoras globais e de ingênuos
boçais, foi instituída pela programação extra
na cerimônia de encerramento da apresentação dos softwares
do sistema, na madrugada do sábado dia 10 de agosto de 2002, abordada
no crepúsculo deste livro. A escolha da palavra "boçal"
não tem a intenção de insulto, mas de sintetizar
uma qualidade psicológica. Boçal significa pouco culto e
pouco inteligente, uma mistura explosiva nos dias de hoje, muito perigosa
quando ligada ao estopim da ingenuidade. Aqui, seria boçal ingenuidade
tomar a frase de abertura por conclusiva da análise em foco, como
pretendo mostrar. Infelizmente, a relação entre os sete critérios – que por um lado estariam predicando o sistema – e a frase-síntese – que por outro lado lhe doura com adjetivos universais – assenta-se em excessivas e desnecessárias ambiguidades, agravadas pela natureza e importância do documento. Tal relação estará, daqui em diante, sob o foco deste comentário. Antes, vale notar: sua exuberante permissividade é quem revelará os sentidos de “eventual” e “adicional”, suspensos e livres na definição do rumo dos trabalhos da comissão analisadora. Comecemos pela palavra “seguro”. Dela emanam três possíveis sentidos aplicáveis ao sistema eleitoral. Os trabalhos da comissão atestam dois deles. Atestam a segurança da urna contra falhas não intencionais (safety, também nos sentidos de “robusto” e “confiável”) e contra fraudes de origem externa (security). Porém, nada atestam contra fraudes de origem interna (security, também no sentido de “confiável”). Ao contrário, o relatório termina com oito recomendações para que a segurança e a confiabilidade do sistema possam “ainda ser aprimoradas", todas contra fraudes de origem interna. Ora, a palavra “seguro” é empregada na primorosa frase-síntese como adjetivo, sem restrições. Daí, depreende-se o caráter supérfluo com que se optou por gravar, no relatório, o sentido da proteção contra as fraudes que possam ter origem interna. Foi dado, assim, por supérfluo o sentido de segurança alcançável somente por uma auditabilidade eficaz, ausente e recomendada, mas desprezada na abertura da conclusão. Iluminemos agora a palavra “confiável”. Sua substância verseja no poema dedicado ao ministro do TSE que negou, com amparo em duas justificativas técnicas relatadas em juízo pelos que respondem pelo sistema, a impugnação dos softwares da urna na eleição de 2000. Uma dessas justificativas foi falseada pela penúltima das recomendações do relatório. Pois não faz sentido recomendar que se faça aquilo que já estaria feito, relativo ao acionamento do programa criptográfico, como registra o moderador do Forum do Voto Eletrônico ao abrir este livro. E ao fechá-lo, tomarei a liberdade de transcrever aqueles versos, em gozo da licença outorgada e como derradeiro registro do que esta palavra deve aqui refletir. Dos sete critérios listados para consagrar conclusivamente a robustez, a segurança e a confiablidade do sistema analisado, o quarto deles é o único que abarca o sentido de segurança ou confiabilidade contra fraudes de origem interna. Porém, é também o único cuja aferição foi vitimada por um colapso. A afirmação de que o sistema satisfaz este critério está presa numa circularidade, oculta na penumbra que recobre de insignificância sua auditabilidade, num colapso lógico-lingúistico a turvar tão oneroso trabalho. O Colapso do Quarto Critério Diz este quarto critério:
Esta sentença de duas frases merece cuidadosa
análise, já que sua primeira frase é a única,
em todo o relatório, que poderia vestir de universalidade os três
adjetivos da frase-síntese, na abertura das conclusões.
Ao examinar a frase seguinte, observamos que toda a sua digressão serve apenas para afirmar que os possíveis objetos da ação contábil – os dados – são persistentes e consistentes. Isto é, antes e depois de eventuais falhas não intencionais do sistema, tais como problemas com a bateria ou defeitos em algum circuito elétrico da urna, os dados serão os mesmos. Porém, sujeito e objeto da ação contábil são disitintos, pois boletim de urna não é programa de votação. Tal digressão, portanto, não aborda a persistência e consistência do sujeito contábil, antes e depois de eventuais tentativas de burla no sistema. Aborda, apenas, a persistência e consistência do objeto contábil, antes e depois de eventuais falhas no sistema. É claro que a eventualidade de tentativas de burla já foi coberta por outros critérios, mas apenas daquelas tentativas que se originarem externamente. Doutra parte, ignorar as que possam se originar internamente é ferir a universalidade com que se pretendeu vestir as boas qualidades do sistema. A persistência e consistência do sujeito contábil não foram – e não poderiam ter sido – aferidas pela análise. Não é lógico, portanto, percolar o sentido explícito de "confiável", que emana da segunda frase, para seu sentido impícito na ambígua acepção de corretude, na primeira frase. Isto seria um sofisma, imperdoável nesse contexto. Precisamos, então, ultrapassar o escopo deste quarto critério para buscar tais aferições faltantes. E, ao busca-las por todo o documento, o que vamos encontrar não é propriamente o relato dessas aferições, mas sugestões sobre como obtê-las. Só que vamos encontrar essas sugestões na penumbra das adições, nas oito recomendações sobre auditabilidade, insignificantes para âncoras globais e ingênuos boçais. Evidentemente, os subscritores do documento se eximem dessas duas categorias. Da primeira, por sua conduta recatada e distante na divulgação do documento. Da segunda, através dos dois últimos parágrafos do relatório, onde registram claramente a seriedade e gravidade com que consideram o risco de fraude de origem interna. Lamentavelmente, entretanto, a objetividade deste registro final se dissolve no mar das eventualidades e adicionalidades subjetivas em que já havia submergido o seu trabalho. No documento assim costurado, cada um lê a parte que lhe interessa, produzindo-se leituras que aparentam vir de relatos distintos, ou, talvez, de um relato esquizofrênico. Naquela fatídica noite de 29 de Maio de 2002, num gesto de gentileza para com seus telespectadores, o mais global dos âncoras encerrou as pompas da proclamação abra-cada-brado afirmando que a Justiça Eleitoral já havia atendido a quatro das sete recomendações para aprimoramento do sistema, sugeridas no recém-digerido relatório. Mesmo que as sete já tivessem sido atendidas – soube-se depois que eram oito –, precisamos nos lembrar da metáfora da corrente e seus elos para entendermos o que seja segurança. Se uma das medidas para proteger sua casa seja trancar a porta dos fundos, e o ladrão souber que você não a tranca, estará você protegido? Fui dormir com uma desconfortável sensação de enjôo, como a de quem percebe perigo iminente, e com a frase do Senador Tuma girando na mente. Debatendo o Relatório Nove dias antes, eu esta estava em situação bem mais confortável. Participava, em Búzios, do 20° Congresso Brasileiro de Redes de Computadores, promovido pela Sociedade Brasileira de Computação - SBC, onde fui abordado pela secretária da Sociedade com um convite para participar de um dos eventos do XXII° Congresso da SBC, que seria realizado em Julho, em Florianópolis. Este evento seria uma sessão dedicada ao processo eleitoral informatizado. -- “Aceito se for para palestrar ou debater, com passagem fornecida” respondi. .... O RESTANTE DESTA NARRATIVA PODE SER ENCONTRADO NO LIVRO "BURLA ELETRONICA", EDITADO POR O. MANESCHY E M. JACOBSKIND, PUBLICADO PELO INSTITUTO ALBERTO PASQUALINI, QUE SE ENCONTRA NO PRELO NESTE MOMENTO (28/09/02).
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